Eram recém-casados. Pedro e Lurdes ganharam uma casa dos pais do noivo e dela fizeram a morada da nova família.
Naquela época, nas ruas da classe média, era comum que as famílias plantassem uma árvore em frente ao portão da casa. Ninguém pensava previamente se seria grande ou pequena ou se teria raízes rasas ou profundas, mas importava muito que fizesse uma boa sombra e que, de quebra, gerasse muitas flores e até frutas, se possível.
As crianças brincavam nas ruas de terra o dia todo. Só se ausentavam para comer e ir à escola. Sombra era crucial.
As mães entravam e saíam da casa uma da outra, bastando chamar pelo nome. Nada de campainha ou telefone, não havia. Trocavam flores e frutas de suas árvores, e também de outras tantas plantas que cultivavam em seus enormes quintais.
As famílias, ao entardecer, colocavam as suas cadeiras na calçada e se reuniam para conversas, enquanto as crianças continuavam brincando tanto quanto fosse possível, torcendo para que os pais ficassem lá fora a noite inteira.
Havia de tudo nesses encontros: “conversas de pais”, “conversas de mães”, travessuras de crianças, barulheira de animais de estimação, enfim.
O casal tinha que se inserir em tudo isso. Então, plantar uma boa árvore pareceu ser um bom começo.
Nenhum dos dois entendia nada de plantas, mas quiseram fazer a escolha sozinhos, desfrutando da liberdade de serem agora donos de si, e não mais simples filhos dos pais.
Escolheram uma que ficaria bem grande, com uma sombra gigante. Deram o nome de Morena. Ela era só uma pequena muda, mas ficaram apaixonados por ela. Plantaram bem em frente ao portão, que não guardava nenhum carro, porque não havia.
A árvore era amada por todos. A rua era de terra, então o monte de folhinhas, florzinhas e ervilhas que ela derrubava eram absorvidos pela natureza e pronto. Frutas ela nunca deu, mas ninguém se importava.
Os anos se passaram. A rua foi asfaltada e a calçada ganhou um piso de cimento. Chegou o telefone. Chegou o carro.
Ela cresceu tanto, que começou a se enroscar nos fios da eletricidade e do telefone. As folhinhas, as florzinhas e as ervilhas da bela árvore passaram a ser uma chateação, em especial porque ninguém mais aproveitava a sua sombra nem apreciava a sua beleza. Todos apenas passavam de lá para cá, nas suas “vidas corridas”.
Pedro e Lurdes tiveram filhos, mas cresceram e se mudaram. O casal percebeu que, novamente, eram só os dois, e envelheceram juntos. Ainda iam para a frente do quintal, a fim de apreciarem a bela árvore que haviam plantado há tanto tempo na calçada.
Então eles se foram deste mundo, primeiro Pedro, depois Lurdes. A casa foi vendida e a última notícia da Morena de Pedro e Lurdes foi que “ela estava em risco de ser atingida por um raio ou de ser devorada por cupins”.