Tudo o que ela poderia querer naquele momento da sua vida era aquilo: uns dias no silêncio absoluto, só quebrado pelo canto dos pássaros e pelo passar do vento. A vida simples de apenas estar viva.
Julia acordaria muito mais cedo do que estava habituada nos últimos meses. Ficou se perguntando se conseguiria. Programaria o celular para antes das seis horas, checaria diversas vezes, nem conseguiria pegar no sono rapidamente, de tão preocupada. Foi bem aí que percebeu que não estava se entregando para o Universo, que deveria confiar mais no que estava planejado para ela naquela vivência.
Depois do seu ritual pessoal, no quarto do retiro, seguiria para as atividades do dia, que se resumiriam em comer, “orar” e meditar.
Isso a fez lembrar do filme “Comer, Rezar, Amar”, estrelado por sua xará Julia Roberts, sobre uma descoberta de quanto o equilíbrio dessas três coisas influencia o nosso sentimento de bem-estar.
Era a grande pergunta que Julia se fazia, se ela seria capaz de encontrar o seu tão desejado sentimento de bem-estar, ao passar por aquela experiência, semelhante à que o próprio Shakyamuni Buda havia tido para obter a sua iluminação.
A recomendação de manter silêncio e evitar interações a fez pensar nas pessoas que fazem votos de silêncio radicais. O silêncio e a introspecção são desafios enormes para os costumes da nossa civilização barulhenta, repleta de distrações que propositalmente nos trazem cada vez mais para fora de nós mesmos.
As pessoas que optam por se retirar desse cenário raramente são compreendidas.
Não se trata de um processo de fugir do mundo, mas sim de um chamado para a autodescoberta e o autoamor. Na noite antes de ir para o local, Julia teve um sonho. Parecia que já estava lá. Passou pelos portões de entrada e andou pelos corredores do mosteiro. Também pelos jardins. Sentia uma presença que a acompanhava o tempo todo. Uma presença confortante, de puro amor. Talvez essa presença fosse ela mesma, finalmente sendo descoberta.