O teto, forrado de uvas, parecia o próprio “Céu do Paraíso”. Lembro-me muito bem dessa sensação.
Eu ficava horas e mais horas balançando sob aquele teto. Conhecia cada cacho de uvas, cada grão. Ficava torcendo para amadurecerem logo.
Na verdade, eu acompanhava todo o processo das parreiras de uva dos meus pais.
Após produzirem, e depois de um tempo, pareciam totalmente mortas. Eram apenas galhos. Isso sempre apertava o meu coração. Eu ficava apreensiva, pensando se elas estavam bem e se voltariam à vida, como sempre faziam.
Então, como que por um milagre, apontavam novamente as folhinhas. Depois, os minis cachos, uma mistura de flores com uvas, que eu nunca soube definir ao certo…
E, a partir disso, começavam a engordar, engordar e engordar.
Essa era a minha parte preferida. O meu olhar percorria cada um dos cachos. Eu torcia por todos eles. Lamentava os que desistiam. Sorria para os que cresciam.
E balançava sob eles. Todos os dias, por horas. Pulava da balança em movimento. Balançava nela de pé. Deitava nela. Fazia que ela era um cavalinho e me virava de lado nela. Ficava conversando com as uvas e com a balança.
Cantava, sabe-se lá o quê, eu nem me lembro mais…
Lembro-me da minha mãe me checando de tempos em tempos.
Pelas minhas contas, eu devia ter uns quatro anos. As impressões que trago comigo são bem simples, mais para sentimentos do que para fatos confiáveis.
Mas as colheitas eram momentos memoráveis. A minha família se juntava, os adultos com tesouras, e as crianças com os seus gritos de felicidade! Os cachos de uvas finalmente saíam do inalcançável e entravam no tocável, no apreciável pelas nossas bocas. Ahhhhhh, momentos mágicos! Finalmente tocávamos o Céu do Paraíso!
Às vezes me pego tendo esse mesmo olhar sobre fatos da vida…