Fazia muito tempo que ela pedia um gato para o pai, mas ele não achava muita graça nisso. Nem nesse “bicho” (como ele mesmo dizia). Esse era o primeiro pensamento dele, o pai.
Mas, depois de tantos pedidos, ele achou que até poderia tolerar um coelho, afinal de contas, ele já tivera um na época da sua infância.
O aniversário dela estava chegando, as ideias para presente estavam escassas, então o pai resolveu dar um coelho de presente para a filha. Ao menos era um bicho, não é mesmo? Esse era o segundo pensamento dele.
Para dizer bem a verdade, ele acabou ficando muito animado com essa providência. Tão animado, que não poupou esforços. Entrou de cabeça nas pesquisas sobre coelhos. Sabia raças, de onde provinham, cores e tipos de pelos, cores de olhos, cuidados básicos que deveriam ter, enfim. Finalmente escolheu o coelho perfeito. Comprou um, com uma cesta e tudo, e esperava que o coelho ficasse dentro dela e bem comportado até que ele fizesse a entrega tão esperada (por ele).
Era uma tarde logo após sair do trabalho, quando ele passou para pegar a encomenda, colocou-a no piso de trás do carro e “partiu casa”. Nem considerou que não era apenas um pacote, mas um bicho vivo!
Plena sexta-feira, a cidade inteira retornando do trabalho para casa, o mesmo trânsito miserável de sempre. Mais de duas horas até chegar no condomínio onde moravam. Um lugar bem arborizado, contrastando com o excesso de concreto da região onde ele trabalhava.
Hora de pegar a cesta com o bicho dentro e entregar para a sua filha ficar feliz e parar de pedir um gato.
Cesta localizada, mas coelho não. Cadê o coelho? Nada de coelho, só um monte de bolinhas de cocô espalhadas por todo o piso do seu lindo carro. E, naquela de olhar melhor embaixo dos bancos, abriu mais a porta. Sorte do coelho, foi a deixa para ele. “Adeus papai”. Já era o coelho, que foi direto para os belos jardins do condomínio e nunca mais foi encontrado. Falando bem a verdade, ninguém fez muito esforço nas buscas, porque quem ia perder tempo com um coelho?
O criador nem se comoveu com a história. Nada de substituto, o pai que comprasse outro. Quanto mais vender coelhos, melhor para ele. Por isso ele mantinha as mães coelhas sempre prenhas. Quanto mais pais como esse, melhor para os seus negócios.
Nada de retorno do investimento. O pai só gastou “uma nota” naquele coelho com pedigree, marrom e peludo, com um nome bem estranho para um coelho.
Nada de coelho para a filha. Nem para ele. Ela continuou pedindo um gato. O doce papai teve então o seu terceiro e mais profundo pensamento sobre tudo isso: “bicho dos infernos!”.