Sabe o que mais tem no mundo dos seres humanos?
Pessoas comuns.
Aquelas que levam a vida como podem. Acordam, laboram, dormem. Acordam, laboram, dormem.
Muitos comem, bebem, expelem suas sobras, tomam banho, trocam de roupa, convivem com uma família e com amigos. Outros, quase nenhuma dessas coisas, só sobrevivem.
Mas é isso. Nada extraordinário.
E, no entanto, os “comuns” são discriminados até por eles mesmos. Duvida? Lá vai a prova!
*
Gomes era de uma família bem numerosa, acostumada a ter os pés em terras de plantações, desde muitas gerações. Entre irmãos e irmãs, vivos e já idos, podemos dizer que eram dez.
O pai, Jair Gomes. A mãe, Ana Gomes. O Gomes, ninguém sabia, era só Gomes, o primogênito do casal.
Jair e Ana tiveram uma das costumeiras discussões do casal, sobre trabalho e comida. Quem trabalhava mais e quem trazia mais comida eram seus temas preferidos. Nunca davam em nada sério, pareciam mais uma diversão entre eles.
Mas, dessa vez, Jair sentiu-se muito triste com aquela cena. Alguma coisa dentro dele havia mudado, quando disse “Ana, a nossa vida vai melhorar, de qualquer jeito, escute só o que te digo”.
Ana não levou essa afirmação a sério, mas estranhou. Não era assim que costumavam acabar os embates entre eles. O mais comum era um ir para a esquerda e outro para a direita, simplesmente para cuidarem dos afazeres do dia, que eram sempre iguais.
“Gomes, hoje você vem comigo, precisarei da sua ajuda.”
Gomes, que na época tinha completado seus dez anos, correu atrás dele, de olhos arregalados. “O que será que meu pai vai querer de mim?”
Ele nunca poderia imaginar aquilo.
Quem planta vê a água como um bem valioso, que serve para regar as plantações, que são o sustento das famílias que a cercam. Nem se dá conta de que a água, em si, é cheia de vida. Entre enxadas, pás e cavadeiras, toda a família do Jair encontrava a sua subsistência.
Só de longe, o olhar de Jair era direcionado para os pescadores. E este foi um trabalho do tempo, chamar a atenção do Jair e lhe mostrar outras possibilidades.
O pensamento de Jair e Ana era “Somos especialistas nestas terras, ninguém as faz produzir como a nossa família”.
Jair tinha feito uma amizade recente, o rapaz era um pescador, que dizia “Ninguém conhece estas águas como eu, tiro peixe de qualquer lugar, só de conversar com elas”.
“Pai, para onde você está nos levando?”
“Gomes, você fala demais, só me siga.”
De repente, só se houve o José, esse amigo recente do Jair, dizendo “E aí, Jair, é hoje? Vejo que trouxe até reforço!”, e caiu na risada.
Juntaram-se, então, em frente a uma pequena canoa, vamos dizer assim. E, sob os olhos ainda arregalados de Gomes, subiram na canoa nesta ordem: primeiro o José (todo feliz), depois o Jair (simulando que não estava nem um pouco preocupado), e depois o Gomes (literalmente arrastado).
Jair queria ver Ana mais tranquila com a vida. As plantações têm seus ciclos e, nos intervalos, ele começou a achar que poderiam fazer outra coisa, como pescar.
Sim, era uma conclusão bem ousada e arriscada. E Jair foi desfiando essa possibilidade bem devagar, prestando atenção em tudo. Esse momento de decisão era apenas seu ápice, como um botão “ligar-desligar” que tivesse sido posicionado em “ligar” pela Ana, naquela recente discussão.
Ana era uma mulher admirável, e Jair tinha isso bem claro na sua mente. Os dez filhos que fizeram juntos só tinham aperfeiçoado as características dela que ele mais amava. Companheira de mão cheia. “Sou mesmo um sortudo”, pensava ele cada vez que a olhava.
Mas Gomes só conseguia pensar “Que fedor é esse que essa canoa tem, misericórdia!”.
Resposta? Caldo de peixe curtido na madeira. “Acho que meu pai pirou”, era a segunda coisa…
E saíram para pescar. Todos os três: o chefe José, o ajudante Jair, e o Gomes ajudante do ajudante. Que time!
Naquele local, ainda não existia um instrumento eficaz para pegar vários peixes de uma só vez, era quase que “no um a um e no um contra um” para ver quem se sai melhor: humano ou peixe.
Jair trazia no bolso um trançado que Ana tinha feito, que ele achou bonito demais, porque parecia uma renda de fibras de plantas. Habilmente ele colocou o trançado em um arame que também levou consigo, formando uma espécie de “coador”. Ele estava louco para testar a sua teoria.
Gomes e José só se entreolharam, sem entender nada.
Nos moldes tradicionais, pescaram um peixe, depois outro, depois outro.
Jair pegou um dos peixes e o esfarelou na água, rente à canoa. E só ficou esperando. A canoa quase tremeu quando aquele cardume chegou com tudo. Jair sacou seu “coador” e foi só recolhendo o quanto de peixe conseguiu. Muito mais de dez.
De novo, Gomes e José ficaram sem saber o que fazer ou dizer. Estavam de boca aberta.
Naquele dia, e depois, em tantos outros dias da vida dos Gomes, eles se alimentaram de muito peixe!
Mas quando Ana viu pai e filho voltando com um “coador cheio de peixes”, também ficou de boca aberta e pensou “Como é que o meu mero Jair pensou nisso?”
*
Jair não ninguém especial. Apenas uma pessoa comum, que levava a vida como podia. Acordava, laborava, dormia. Acordava, laborava, dormia.
Também comia, bebia, expelia suas sobras, tomava banho, trocava de roupa, convivia com uma preciosa família e com valiosos amigos.
Ninguém extraordinário. Só um humano comum, que aprendia vivendo, como todos nós. Também inspirando quem o cercava…