Acordar cedo, pular da cama, fazer a higiene, vestir-se, tomar o café da manhã e sair para a caminhada.
Sempre foi assim, desde que adentrou a idade adulta. Então, mesmo com os seus noventa e cinco anos de idade, era desse modo que Venâncio iniciava o seu dia.
Nascido em uma família portuguesa de nove irmãos, sendo cinco homens e quatro mulheres, ele era o mais velho. E, ainda assim, já tinha participado da despedida de todos os seus irmãos. Só ficou o Venâncio.
Isso lhe trazia um sentimento misto de orgulho com nostalgia. Sempre ficava pensando em como a sua decisão de cuidar preventivamente da sua saúde o havia premiado com tantos anos de vida. Por outro lado, sentia uma imensa nostalgia dos maravilhosos encontros de família. Nessas situações, só não podia faltar a bacalhoada e uma bela cantoria de fados. Mas teve uma delas que ficou marcada na sua memória de um jeito muito especial.
A “cena um” surgia inteira, como se estivesse bem na sua frente: seus pais dançando um “vira”, sua mãe de tamancos portugueses e grávida do nono filho, muita bacalhoada na barriga, as crianças em volta, fazendo a maior bagunça.
A “cena dois” era consequência, não havia como esquecê-la: vômito da mamãe, escorregão geral no vômito da mamãe, papai aparando a mamãe desesperadamente, os dois deitados no chão, risada geral até não poder mais.
“Cena três”, mamãe direto para o hospital, porque a bolsa do bebê resolveu romper: nasceu o filho número nove.
Como uma grande homenagem a esse acontecimento inesquecível, os oito irmãos do filho número nove resolveram dar um nome para o irmãozinho. Comunicaram essa decisão aos pais, que receberam a manifestação com muito carinho e autorizaram o feito. Mas eles teriam um dia para isso, porque o bebê tinha que ser registrado rapidinho, nada de ficar sem nome por muito tempo, como um pagão. Essa era a ideia deles.
Houve, então, a “Reunião do nome do bebê”, um marco ainda superior ao da proeza da mamãe. Foi no fundo do quintal da casa, no quartinho das ferramentas do papai cuidar da terra e das plantas.
Venâncio sempre fica emocionado quando pensa nisso. Nem ele sabe direito qual o motivo, mas fica.
Oito crianças, com diferença de um a dois anos entre uma e outra, não era grande coisa. Podemos dizer que eram todas crianças. Ninguém sabia por onde começar, então pensaram em cada uma falar uma palavra bonita, eles anotariam no chão de terra com um pauzinho e, no final, pensariam em algo para fazer com tudo isso.
Bem, quando começaram a buscar inspiração, as únicas coisas existentes eram as ferramentas do papai. Então, a lista ficou mais ou menos assim: rastelo, enxada, pá, cavadeira, peneira, martelo, serrote e regador. O fato é que todos ficaram olhando para ela bem mais de uma hora, sem saber o que fazer dela. Também havia um calendário pregado na parede, contendo a figura da “Sagrada Família” (José, Maria e Jesus).
Acho que Deus compadeceu-se da situação deles e lançou um clarão de relâmpago repentino, que iluminou exatamente o rosto do José. Um olhou para o outro, aliviado, e gritaram em uma só voz: José!