O gato

A campainha da casa soou insistentemente. Alguém estava realmente querendo ser atendido.

Paulo, apesar de contrariado, por ter que sair do sofá àquela altura do dia, logo abriu a porta, para livrar-se daquele barulho irritante.

O rapaz do lado de fora do portão disse que havia um gato atropelado na calçada. Ele tinha parado o carro no meio da rua, então disse que precisava ir, que só queria avisar mesmo. Entrou no carro apressadamente e se foi. Se ele era o culpado ou se foi só um cara legal, nunca se soube.

O fato é que Paulo logo identificou um gato “estrebuchante”, com visíveis espasmos de tempos em tempos, em pura agonia. Muito mais do que depressa, chamou seu filho Alfredo para ajudá-lo. Na casa, eles também tinham gatos, então o fato logo os tocou. Na verdade, quatro gatos, sendo a mãe e seus três filhotes, já crescidos como ela.

Então, diante daquele chamado, Alfredo saiu correndo ao encontro do pai, abriram o portão, pegaram o gato com cuidado e o colocaram para dentro do quintal, supondo que ele estivesse todo quebrado. Só que não. Repararam que ele tinha um fio de sangue bem sutil no cantinho da boca, quase imperceptível. Estava com os olhos meio vidrados, mas ainda com vida. Ele olhou, de um modo único, para o Paulo e o Alfredo.

Os dois falaram entre si e Alfredo começou a ligar para os veterinários conhecidos. Era um final de semana, então, nada de algum deles atender. Enviou mensagens. Enquanto essas medidas aconteciam, um último espasmo sacudiu o gato, e seus olhos vidrados viraram puro vidro de imediato. Bem sob as mãos de Paulo, que o afagava suavemente entre as orelhas, como fazia para agradar os seus próprios gatos.

Paulo e Alfredo entreolharam-se, mais paralisados do que o próprio gato, que misteriosamente ficou duro quase que no mesmo instante.

Envenenado? Era a explicação mais lógica…

Atropelado? Até podia ser, por ter ficado desnorteado. Mas não foi a causa do fim da vida daquele pobre gato, que, pelo jeito, estava incomodando “a vida de alguém mais importante do que ele”.

Ficaram ainda um bom tempo ao lado daquele corpinho, para terem certeza do acontecido. O gato, cada vez mais duro. Os dois, cada vez mais desolados, por não terem conseguido ajudá-lo.

Finalmente a veterinária dos gatos da casa surgiu, confirmou a suspeita do veneno, e também se foi.

Eles pegaram um saco de lixo, colocaram o gato dentro e o levaram até a pracinha. Apenas uma pequena pá de jardinagem nas mãos de Paulo os acompanhou. Enterraram-no com lágrimas nos olhos, como se ele tivesse sido um dos gatos da casa deles…

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