Reencontro

Eles sempre disseram que seriam “amigos para sempre”, desde a época do colégio.

Sabe quando conhecemos alguém e parece que já faz muito tempo, embora tenha acabado de acontecer?

Foi assim com Masato.

Só que, mais incrível ainda, aconteceu entre ele, o Akira, o Yuto, o Hiroshi, o Haruki e o Kosei. Qual a chance de uma afinidade tão grande acontecer entre seis garotos?

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Muitos anos já haviam se passado, nem dava para acreditar que Masato faria seus sessenta anos!

Embora todos tivessem estudado juntos no “Colégio Japonês”, pois todos descendiam de famílias japonesas, somente o Masato faria sessenta anos naquele ano 2026. Os demais fariam no ano seguinte.

E como boas misturas de brasileiros com japoneses, também misturavam culturas, costumes, modo de ser e de agir, enfim, traziam o melhor de cada lado. A amizade entre os povos japonês e brasileiro vem de longa data, marcada por colaboração e respeito mútuos.

Mas nesse ponto em específico, “Celebração de Longevidade”, certamente não perderiam a oportunidade de realizar um grande encontro para comemorar.

Então, embora a família de Masato fosse realizar algo mais formal a respeito, os seis amigos fariam outra comemoração, mas essa, do modo deles…

Resolveram replicar uma aventura que vivenciaram juntos quando tinham cerca de dez anos e foram passar um final de semana em Monte Verde, com os pais do Akira. Naquela época, as diversões foram patinação na pista de gelo, batalha de paintball e corrida de quadriciclo, além da aventura de ficarem todos em um chalé com lareira e banheira, com os pais do Akira no chalé ao lado. Ficaram pensando seriamente em quais seriam as aventuras ideais naquela altura da vida.

*

E lá se foram os “amigos para sempre”, logo pela manhã, em uma minivan verde que alugaram com motorista e tudo, para começar bem a tal da réplica que queriam fazer. Só suprimiram a companhia dos pais de um deles.

Aí já começou a oportunidade de colocar a conversa em dia, rir de tudo, jogar amendoim um no outro, cantar as músicas mais improváveis, comentar sobre qualquer coisa interessante que vissem pelo caminho, enfim, até parecia que tinham retornado à infância. Ah, e muitas latinhas de guaraná bem gelado, o refrigerante preferido deles. Só de sentir aquele cheirinho, eles já ficavam felizes!

Chegaram à tarde naquela mesma pousada. Ela ainda estava lá, embora tivesse mudado de nome e de donos. Pintada de vermelho, um telhado enorme, repleta de plantas por todos os lados, com uma fonte bem no meio de um lago cheio de tartaruguinhas.

Cansados, foram direto para o velho conhecido chalé com lareira e banheira. O motorista ficaria na casa dele mesmo e os transportaria nos momentos combinados.

O Haruki, só para variar um pouco, disse que estava “morto” e que ia tomar um banho na banheira. Na verdade, ele só queria iniciar o que mais gostava de fazer na vida, divertir-se com ela.

A água estava tão boa, que ele até adormeceu. Em uma das mãos estava o sabonete líquido, que tombou para dentro. O chuveiro ficava em cima da banheira, e ainda estava aberto.

Água caindo no sabonete líquido é igual a muita espuma. Ela foi subindo e subindo, até bater no nariz do Haruki, que despertou alarmado: De onde veio tudo isso de espuma?

Mas o pior foi quando ele viu aquela que havia se espalhado pelo chão. Formou uma quase segunda banheira no piso do banheiro. Então, o jeito foi gritar por socorro!

Em um segundo o Akira, o Hiroshi e o Masato estavam em volta do Haruki, rindo até não poder mais. Estava inaugurada a temporada de festas.

O Yuto e o Kosei nem se mexeram do lugar, apenas observando de longe, como de costume, pois não há nada melhor do que curtir uma boa preguiça para descansar. Só que não deu muito certo, porque a água da “segunda banheira” escorreu todinha para onde eles estavam, assim que a porta do banheiro foi aberta. Encharcou toda a lenha que usariam na lareira à noite, por isso já estava lá dentro aguardando quietinha. Plano por água abaixo, literalmente.

Os dois levantaram tão de sobressalto que nem perceberam os óculos do Masato, abandonados no chão. Quem pisou? Nenhum deles confessou. Mas essa virou a primeira grande missão do grupo: achar uma ótica para fazer óculos novos, porque tinham tantos graus, que seria impossível uma diversão sem eles.

Depois de secarem tudo aquilo o mais rápido possível, partiram para essa missão. Foram andando mesmo, era bem perto. Só que o Masato teve que ser quase carregado, já que o mundo lhe parecia um borrão.

Yuto e Kosei ficaram com ele, um de cada lado, só para ninguém falar que eles eram folgados. A “rapaziada” não era de deixar passar um comentário divertido, e eles sabiam muito bem disso.

Enfim, entre muitas risadas e tropeços, além de tantos olhares curiosos de quem passava por eles, a missão foi cumprida com sucesso: óculos novos para o Masato.

E como estavam na rua, resolveram garantir a refeição do dia, que seria a preferida: cachorro-quente com guaraná. Mas eles não tinham noção de quantidade, acho que compraram demais.

Chegando na pousada, pediram para preparar. Quando entregaram no chalé, eles ficaram assustados e, ao mesmo tempo, animados, pois “comeriam até arrebentar”!

E assim se cumpriu a previsão. Comeram tanto cachorro-quente quanto conseguiram, enquanto assistiam um filme de comédia antigo na televisão aberta mesmo, bem bizarro. Adormeceram empilhados em frente à televisão, como um bando de moleques felizes. Nada de acender a lareira, desta vez.

Mas a manhã começou bem agitada. O Hiroshi e o Masato batiam freneticamente na porta do banheiro, tentando tirar o Akira de qualquer jeito. Aquele banheiro seria o local mais concorrido naquelas primeiras horas do dia.

Imediatamente foi instituído um revezamento. E assim foi, até que o cachorro-quente se despediu definitivamente de todos eles.

Se alguém está pensando que eles ficaram chateados com a situação, engana-se totalmente. Um brincava com o outro, jogando os rolos de papel higiênico de lá para cá,  e espirrando muito um “Bom Ar” de flores que tinha no chalé, só para sinalizar que a coisa estava feia.

Na verdade, eles só não queriam perder a cavalgada da tarde, que seria a grande aventura daquele final de semana inesquecível.

A ideia foi do próprio Masato, que pensou: 2026 é ano do cavalo, então vamos homenageá-lo, certo?

Ninguém sabia muito bem o que isso significaria, porque “andar a cavalo” era algo que nem sequer um deles dominava.

A sorte deles foi que “os caras dos cavalos” eram realmente incríveis, e deram todo o suporte para eles. É maravilhoso quando nos deparamos com pessoas que fazem o seu trabalho com amor e que estendem esse amor para tudo o que os auxilia a fazer esse trabalho. Neste caso, estendiam esse amor aos grandes astros, os cavalos. Seres que são nossos parceiros desde os tempos mais remotos da nossa jornada neste planeta. Seres fortes e independentes, cheios de energia e disposição para seguir em frente, percorrendo as aventuras da vida.

Enfim, tudo certo, estavam todos a postos na hora combinada, cada um com um cavalo.

Depois de uma pequena aula de condução dos animais, seguiram juntos o percurso, liderados pelo instrutor.

O local era bem arborizado, com um riozinho correndo ao lado, e estava na época da florada do ipê branco, que havia em profusão naquela alameda construída para as cavalgadas. O perfume das flores espalhava-se com o vento, que estava bem generoso naquele dia: Será que os cavalos também tinham comido cachorro-quente?

Esse certamente foi o pensamento que passou pela cabeça do Masato logo que passaram pelas árvores, e que parecia que tinha sido transmitido para todos eles!

Um olhou para o outro e foi só risada. Não paravam mais. E, para sermos justos, quem “pegou” de primeira foi o Haruki, seguido pelo Akira e o Hiroshi. Um segundo depois, o Yuto e o Kosei.

O instrutor até virou para trás para ver o que estava acontecendo, mas não identificou nada. Só concluiu que era “um bando de malucos felizes”.

De fato, se eles eram encarados como tal, não se importavam nem um pouco, pois possuíam os bens mais valiosos que se pode ter: a amizade sincera e a oportunidade de iniciar um novo e animador ciclo da vida, com muita sabedoria acumulada!

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